Alicia Na Cidade Do Sinal Vermelho

Atualizado: há 1 dia
Por: Douglas Gadelha
Curta-metragem Alicia Na Cidade Do Sinal Vermelho. Direção de Tato Sanches.
O começo de alguns filmes podem ser parecidos. Aqui em Abstração (2025) a personagem não está buscando nada, nem voltando e nem indo para algum lugar. Ela está fugindo de sua família. Já iremos voltar aí, porque antes, precisamos nos situar: uma camisa vermelha, um cabelo curto, um carro popular, um cruzamento de uma cidade litorânea pacata, um semáforo, um celular e a impaciência constroem a cena inicial. Como em Veludo Azul (1987, David Lynch) quando Jeffrey está andando pelo quintal do seu bairro pacato, o vermelho, o amarelo, as flores e as casas reluzem tão vividamente que a partir dali já adentramos no mundo fantástico do filme. A locação de Abstração (o interior de um carro parado num semáforo) além de inventiva para uma ficção visto a cena audiovisual exibida na 17ª Mostra MABS, faz de um ambiente fechado, pequeno, cotidiano e cansativo uma ponte para um mundo fantástico dilatado pela imaginação. O momento em que uma personagem se desloca do mundo prosaico para o imaginativo, é o começo do cinema, da literatura e das formas de narrar, mesmo que Abstração se valha do fluxo de pensamento subjetivo para contar a história, somos confrontados mesmo nessa meditação urbana, aos outros personagens em conflito de Alicia, como o seu filho e sua mãe.
O momento disparador onde uma personagem se irradia e entra em outra ordem, por exemplo, é a forma de narrar de quase todos os contos e romances de Clarice Lispector. Alicia, possui esse estranhamento e está impedida por um semáforo demorado (uma metáfora para o provincianismo do nosso litoral) e a percepção das coisas miúdas que dão pouco a pouco a passagem para a imaginação, que aparece como um dispositivo de elaborar tudo aquilo que não consegue dizer no dia-a-dia, por exemplo quando Alicia reclama: “tenho que criar um filho, ser uma boa filha, subir de cargo no trabalho, ler livros e ainda correr de noite - ah vai se foder!”. A visão do carro, ou a câmera, aparece como uma confissão de Alicia, compartilhada por nós espectadores durante aquele sinal vermelho.
Os efeitos que uma vida performática impõe a todos, sobretudo às mães-solteiras-filhas-de-mães que cobram excessivamente das suas filhas-mães-que-são-cobradas, vai situando o espectador numa sujeição implacável. Embora conhecemos a vida de Alicia através de sua própria voz (Bentinho demais para ser decolonial), os seus conflitos com o filho e a mãe aparecerão tal como a sua imaginação, como um sintoma do nosso tempo subjetivista que confina nossa psiquê em solipsismo diários, efeito de duzentos anos de valores burgueses (daí o carro ser a proteção mais sólida para Alicia).
Ainda seria possível anotar algumas coisas sobre Abstração e seu contexto mais amplo: quanto à sua forma, se utiliza do recurso imaginativo em primeira pessoa, um tanto comum para um curta-metragem porém incomum em nossa cena audiovisual da Baixada Santista; a ficção em nosso território está embebida de roteiros: ou positivos até às últimas consequências, ou pessimistas com gosto de divertido; a torção da forma de narrar parece não ser a saída dos roteiros, uma vez que sempre temos personagens planos o suficiente em convencer facilmente o público, isto é, pouco contraditórios; o conteúdo não influi em geral aqui no baixo-trópico na forma de narrar: Abstração navega ainda que imaginativamente mesmo que sua personagem esteja confinada (“mas a imaginação é a liberdade que quebra as correntes da paralisia!” - diria um/a roteirista). Sim, naturalmente, mas mesmo um roteiro imaginativo pode acabar aprisionando seus personagens. E vejam: se dobrarmos a condição de uma personagem à forma que estamos narrando, ou seja, influir os efeitos dela diretamente naquela (e isso significa quebrar as formas para remontá-las) nos possibilitaria o início de um cinema independente e autoral suficiente para chamar de nosso.
A aplicação naturalizada das regras geram obras sempre obedientes o suficiente - e isso parece ser o tom dos filmes exibidos nos mais diversos festivais da região, a não questionarem o seu próprio ofício. Pois bem: Abstração é um ótimo curta de ficção, por ser feito na Pracéia e isso por si só arejar a produção sufocadamente santista, mas repete alguns vícios formais que o nosso cinema aplica inconscientemente. A fotografia, por outro lado, toma corpo e cor na oferta de um mundo diferente (colorido sem ser cansativo) mas quando adentra o fundo preto da “imaginação” (exigida pelo roteiro) quebra o vínculo do fantástico. Reside aí justamente uma virtude interessantíssima de Abstração: o espectador parece confiar muito mais na imaginação de Alicia através do espaço confinado do carro (outorgado pelas cores estranhamente vibrantes, ruas sem pessoas e do sinal vermelho que insiste em não abrir) do que o fluxo de imaginação ambientado de um estúdio.
As vezes o real é mais telúrico do que se pode imaginar ou abstrair. No fim, ao baterem em seu carro parado e o sinal esverdear, você percebe que ir morar em Praia Grande (ou Praiacéia) em busca de sossego e qualidade de vida, é mais uma ilusão que se compra facilmente. As festas, o trânsito, os filhos, as cobranças, correr atrás das cenouras que por aí aparecem e os modos de vida continuam os mesmos - até piores, caso esteja ainda imaginando.
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