Quando O Filme Olha De Volta

Atualizado: há 1 dia
Por: Bruno Christovam
Curta-metragem Memórias de Você. Direção de Thomas Aguina.
Fotografias em preto e branco do cotidiano de uma personagem sem nome, referida apenas como Mulher (interpretada por Gabriela Bastos), estabelecem o presente de Memórias de você. Quando ela coloca sobre os olhos uma espécie de máscara ligada a um pequeno aparelho bioeletrônico, passa a enxergar as memórias de sua mãe, armazenadas no aparelho após sua morte. As lembranças aparecem em imagens coloridas, criando uma distinção visual imediata entre o presente e aquilo que ficou para trás. Estas memórias são, sobretudo, momentos de sua própria infância, cenários cotidianos e cenas afetuosas entre mãe e filha. O aparelho transforma o passado em algo acessível, dando uma forma concreta à experiência do luto: o vínculo afetivo que permanece da mãe torna-se materialmente acessível à filha.
A escolha das fotografias para representar o presente é um recurso técnico bastante efetivo na construção de um cotidiano marcado por ausências. Diferentes registros de uma mesma situação, com pequenas alterações de posição e enquadramento, são montados em sequência, sugerindo movimento. O procedimento explora a composição dos quadros e dá certo dinamismo às passagens, acompanhadas por uma narração em off, mantendo a dimensão estática das fotografias sem cair na monotonia.
A lógica do aparelho sofre uma ruptura quando a Mulher assiste a uma memória impossível: ela vê a si mesma, deitada no sofá de sua sala, no mesmo momento em que utiliza o dispositivo. Não pertencendo ao passado, a imagem tampouco poderia ter sido registrada por alguém presente naquele espaço. Neste momento, a abordagem de ficção científica se desloca para um território de assombro, flertando com algo do found footage de terror em imagens que pressupõem um ponto de vista que não poderia estar ali.
Integrado ao seu cotidiano, o aparelho passa a funcionar também como uma espécie de apoio emocional para a personagem. Em determinado momento, a experiência se repete: entre as lembranças coloridas da infância surgem novamente imagens do presente, vistas de perspectivas impossíveis. A essa altura, tanto a Mulher quanto o espectador já podem intuir o que aquelas imagens anunciam. O filme é honesto ao não esconder esse movimento, pelo contrário, propõe que o telespectador acompanhe a personagem em sua própria descoberta.
Ao colocar o aparelho outra vez, a Mulher de Gabriela Bastos parece mais decidida, como se já soubesse o que a espera. Em determinado momento, uma figura se aproxima dela dentro daquela perspectiva impossível, e ela estende a mão. O gesto tem algo de aceitação e de síntese simbólica: depois de recorrer às memórias da mãe para lidar com sua ausência, a Mulher finalmente estende a mão em sua direção, transformando aquilo que vinha buscando no âmbito emocional em gesto concreto.
Comentários